Assim dizia a carta debaixo do braço do sujeito:
Meu nome é Paloma,
e tenho um par de asas.
Tenho esta mochila,
e nela muitas cartas.
Meu ofício é entregá-las:
e esta é para ti.
Talvez um dia acordasse do seu sono profundo, na sombra daquela árvore, e um dia, na volta do caminho, ele e Paloma se encontrassem. Ele a notando, sairia da sombra, levantaria o braço. Paloma longe, longe, de campos distantes o avistava, descia ao seu encontro, e, da mão que a resposta prendia, com o bico a segurava, e mais voava e mais voava, ler sentada nas nuvens o que dizia. Talvez um dia da sombra ela o avistasse...
segunda-feira, 6 de maio de 2013
E um prólogo num poema
Numa dourada noite de julho, nasceu Paloma enluarada.
— O vento só de
companhia.
Era como uma menina, mas ao invés disso tinha asas.
Foi incubada por uma pomba, e na noite da casca quebrada
Ela a abandonou no ninho, com uma mochila e mais nada.
Paloma saciou-se da água da chuva,
Comeu dos grãos que o vento soprava,
Cresceu rápido, rápido mais que se imagina,
Achou um lápis e escreveu uma carta.
Um dia teve um sonho tremendo.
Tremendo capaz de fazê-la voar do ninho.
Pela primeira vez bateu as asas
E levantou voo o passarinho.
O que lhe sussurravam ao pé do ouvido,
Ou era o vento, ou era o sonho,
Eram segredos de outro mundo,
O mundo missivo dos Cartamoinhos!
E os sussurros de tal maneira a encantaram,
Se foi o vento ou foi o sonho não sabe,
Mas a encantaram, e de tal modo,
Que em um suspiro Paloma levaram,
Paloma e sua mochila, à mais próxima cidade.
Lá ela encontrou um sujeito,
Dormindo, ao pé de uma árvore.
Debaixo do seu braço esquerdo
Pôs uma carta e deixou-o à vontade.
Aquela era a primeira, que no ninho ela escrevera,
Mas depois tem a segunda, e tem até também terceira.
Com a ideia que o sonho soprara, e com outras cartas na
mochila,
Ela voava, ela voava...
Um prólogo
Nunca havia enviado as cartas porque não sabia como justificar a primeira delas. Fez poema, escreveu no bloquinho, planejou, teceu ideias. Nunca começava. Como dizer? Como contar o que eram? Havia nela um segredo de gosto pelas correspondências. Quando menor, leu um par de livros que começava com o título "Cartas para um...", e despertou a arquitetura. Passou a escrevê-las e confiá-las aos cuidados de uma velha gaveta. Como explicar? Por volta dos seus quinze anos tratou de trocar a luz opaca dos dias pela inebriante coloração dos sonhos. Inventava histórias, tragédias, amores e destinatários que não existiam. Paloma, todo fim de tarde, sentava na cama de seu quarto azul-celeste e botava-se a escrever mais cartas. Cartas, sim, eu diria... Todas elas; mesmo que fossem poemas, mesmo que fossem para lugar algum. Mesmo que fossem monólogos para si mesma. Depois, que muito já havia aprendido e podia até explicar, estonteava-se sem saber ainda como. A verdade é: que haviam todos aqueles papeis sem remetente, missivas sem coadjuvantes, planos, papeis, fragmentos de contos, e pensou em desengavetá-los. Não precisava dizer por quê, desde que houvesse sempre o desejo do encontro. Suas cartas não tinham destinatários porque as escrevia endereçando à porta de alguém que não mora onde. Diria apenas duas coisas, sem se preocupar que fossem novidades: combatidos estejam os frios do inverno, e que se contem as histórias...
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