segunda-feira, 6 de maio de 2013
Um prólogo
Nunca havia enviado as cartas porque não sabia como justificar a primeira delas. Fez poema, escreveu no bloquinho, planejou, teceu ideias. Nunca começava. Como dizer? Como contar o que eram? Havia nela um segredo de gosto pelas correspondências. Quando menor, leu um par de livros que começava com o título "Cartas para um...", e despertou a arquitetura. Passou a escrevê-las e confiá-las aos cuidados de uma velha gaveta. Como explicar? Por volta dos seus quinze anos tratou de trocar a luz opaca dos dias pela inebriante coloração dos sonhos. Inventava histórias, tragédias, amores e destinatários que não existiam. Paloma, todo fim de tarde, sentava na cama de seu quarto azul-celeste e botava-se a escrever mais cartas. Cartas, sim, eu diria... Todas elas; mesmo que fossem poemas, mesmo que fossem para lugar algum. Mesmo que fossem monólogos para si mesma. Depois, que muito já havia aprendido e podia até explicar, estonteava-se sem saber ainda como. A verdade é: que haviam todos aqueles papeis sem remetente, missivas sem coadjuvantes, planos, papeis, fragmentos de contos, e pensou em desengavetá-los. Não precisava dizer por quê, desde que houvesse sempre o desejo do encontro. Suas cartas não tinham destinatários porque as escrevia endereçando à porta de alguém que não mora onde. Diria apenas duas coisas, sem se preocupar que fossem novidades: combatidos estejam os frios do inverno, e que se contem as histórias...
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